Avançar para o conteúdo principal

Dia da Mãe


Naquele fim de tarde dolorida,
foi minha mãe à fonte e viu estrelas
projectadas na água adormecida.
Levantava-se a Lua atrás das serras
e estendia brancuras sobre as ruínas
e ao longo das estradas,
como que desfolhando no ar um ramo
de magnólias divinas e acuçenas magoadas.
E a minha mãe ia a levar a boca à fonte pura
para deixar nela a sede que a pungia.
Por três vezes se ouviu : Ave Maria!
A fonte estremunhou num sobressalto,
Em redor e por cima a Noite,
nua de nuvens, virginal e calma.
O silêncio rezava no céu alto.
Abriam sonhos de oiro em cada alma.
Voltou a casa minha mãe.
E enquanto ela regava, ao fundo da varanda,
um craveiro florido e rescendente, perguntei-lhe,
entre triste e surpreendido, piedosamente:
- Donde vens, que não vens como costumas?
As lágrimas, que trazes nos teus olhos,
não são iguais a lágrimas nenhumas...
Iluminam a casa e dão à gente a sensação
de estrelas despegadas das mãos de Deus
abertas de repente às nossas mãos cansadas.
Respondeu a mãe:
- É que, meu filho, fui á fonte além,
e quando me verguei para beber,
lembrou-se-me de ti o coração.
Então, vi estrelas do céu no fundo da água,
sem limos nem escolhos.
E já não quis beber. E não bebi.
Recolhi as estrelas nos meus olhos
e trouxe-as para ti!

Moreira das Neves

P.S. Parabéns Leonor pelos teus 10 mesitos...

Comentários

Anónimo disse…
obrigado! andava há anos à procura deste poema.

Mensagens populares deste blogue

Ensaio sobre a cegueira

"Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso. José Saramago

Parabéns Salvador... (Jake Pirata)

O miminho que fiz para ti... Por todas as traquinices e meiguices dos teus 3 anos de vida. Amo-te para sempre.

Muriel

Às vezes se te lembras procurava-te
retinha-te esgotava-te e se te não perdia
era só por haver-te já perdido ao encontrar-te
Nada no fundo tinha que dizer-te
e para ver-te verdadeiramente
e na tua visão me comprazer
indispensável era evitar ter-te
Era tudo tão simples quando te esperava
tão disponível como então eu estava
Mas hoje há os papéis há as voltas dar
há gente à minha volta há a gravata
Misturei muitas coisas com a tua imagem
Tu és a mesma mas nem imaginas
como mudou aquele que te esperava
Tu sabes como era se soubesses como é
Numa vida tão curta mudei tanto
que é com certo espanto que no espelho da manhã
distraído diviso a cara que me resta
depois de tudo quanto o tempo me levou
Eu tinha uma cidade tinha o nome de madrid
havia as ruas as pessoas o anonimato
os bares os cinemas os museus
um dia vi-te e desde então madrid
se porventura tem ainda para mim sentido
é ser solidão que te rodeia a ti
Mas o preço que pago por te ter
é ter-te apenas quanto poder ver-te
e ao ver-te saber que vou deixar de ver-te